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Sem querer, querendo

Eu tive o imenso prazer em apresentar uma keynote na conferência nacional brasileira de Gopher - a Gophercon Brasil. A conferência ocorreu nos dias 27, 28 e 29 de setembro, em Florianópolis.

Quando conversei com meu amigo Thiago Avelino sobre temas que gostaria de apresentar em uma keynote, o que mais me animou seria falar sobre o processo de escolha de tecnologia. De maneira simples, o que leva uma pessoa escolher uma determinada linguagem de programação, ou um framework, ou uma sistema de infra-estrutura. Conforme escrevia a palestra percebi que não teria tempo para abordar tudo que gostaria - partindo da aplicação (concreto) para a idéia ou o conceito (abstrato), eu estava gastando muito tempo e mesmo que fosse bem sucedido só conseguiria apresentar uma aplicação da idéia.

Resolvi então trocar a estratégia e escrever no sentido oposto, do abstrato ao concreto. Após apresentar um rascunho da palestra a um amigo de trabalho, ele me recomendou o livro “The Elephant in the Brain” de Kevin Simler e Robin Hanson. Incrivelmente, o livro faz exatamente o que eu gostaria de fazer, incluindo todas as referências bibliográficas que eu tinha e muitas outras mais, mas de maneira bem digerida e clara. Só faltava uma aplicação ao caso concreto para a audiência da conferência: como usar essas idéias para otimizar a sua produtividade.

Espero que tenha conseguido atingir esse objetivo.

Muito obrigado a todos os amigos e amigas que revisaram meus textos e rascunhos - Avelino, Henrique Bastos, Vanderson/Argentino, entre outros.


Quando eu estou programando hoje em dia passo boa parte desse tempo escrevendo código em Go. Mas meu background profissional e técnico foi desenvolvido trabalhando com outras linguagens. Se Go é sua primeira linguagem de programação, a sua visão sobre o universo da computação vai ser moldada pelos conceitos de Go. Você conhece a teoria de Sapir-Whorf?

Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf eram dois linguistas e apesar da teoria carregar seus nomes, eles nunca publicaram artigos em conjunto ou propuseram essa teoria. A teoria possui duas formulações, mas a que eu prefiro está relacionada ao determinismo linguístico, a teoria diz: as línguas que se fala limitam seus processos cognitivos e de aprendizado. E aqui estou falando de linguagens naturais, português ou inglês por exemplo. A proposta é se as línguas que você conhece não permitem expressar determinada idéia, você é incapaz de aprender ou mesmo reconhecer a idéia. Se você se interessou, infelizmente essa formulação da teoria já foi refutada e fica como lição de casa a demonstração.

Mas eu acredito que apesar de não limitar completamente a percepção de conceitos novos a primeira linguagem que se aprende com gosto será a trilha sonora de fundo durante a evolução e aprendizado de novas linguagens. Assim não posso negar que minha experiência com Go é temperada com pitadas das minhas experiências com linguagens mais antigas e estou longe de me considerar um expert em Go.

Dessa forma, apesar de ser uma palestra para a comunidade de programadores Gophers, não vou abordar um tema de programação específico, nem algo relacionado exclusivamente a linguagem Go. A grade da conferência já possuía excelentes palestras com conteúdo técnico muito bom e recomendo assistir os vídeos assim que disponíveis.

Primeira vista

Eu estava no prédio da faculdade de engenharia em que estudei muitos anos quando a idéia que quero apresentar passou pela minha cabeça pela primeira vez. Eu estudei durante um bom tempo naquele prédio e como muitos dos meus colegas eu me perguntei algumas vezes o que eu estava fazendo ali. Algumas das vezes estava me perguntando com o intuito de justificar uma escapada - quem nunca pensou “Meu deus, o que eu estou fazendo aqui? Poderia estar fazendo coisa muito mais agradável em outro lugar.” ?

Mas algumas vezes a pergunta era mais do que superficial. O que realmente eu estava fazendo lá? E a resposta foi mudando com o tempo.

No primeiro ano: “Estou aqui para me tornar um engenheiro da computação.”

No segundo ano: “Estou aqui para me tornar um engenheiro.”

No terceiro ano: “Estou aqui para me tornar algo.”

No quarto ano: “Estou aqui.”

No quinto ano: “Estou.”

Se eu perguntar de maneira informal a um estudante de faculdade, qual o motivo pelo qual está estudando. Que respostas vou obter? “Para aprender.” “Para me tornar um profissional melhor.” “Para obter um emprego no futuro.” Certo?

Mas vamos examinar essas respostas uma a uma. “Para aprender.” Eu não duvido que é possível aprender muito em uma faculdade. Se você se formou em curso superior, se pergunte - você aprendeu mais dentro do seu curso ou do lado de fora? Eu aprendi muito sobre computação na universidade? Com certeza, mas se tivesse dedicado todo aquele tempo a estudar e ler sozinho, teria aprendido muito mais. Então “para aprender” não cola. Próxima!

“Para me tornar um profissional melhor.” Essa é fácil. Você tem um colega de time ou projeto que não tem formação superior e ainda assim é tão bom, ou melhor, do que alguém formado? Quantas vezes já foi abordado esse tópico em listas de discussão de tecnologia - se vale a pena se formar, tirar uma certificação ou meter a mão na massa?

“Para obter um emprego no futuro.” Em tempos de crise econômica, essa resposta precisa de pouco escrutínio para cair ao solo. Você alguém formado, mas desempregado? Você acha que diploma garante emprego? Vide a onda de pós-graduação e certificações. As pessoas estão fazendo essas coisas porque está tão fácil viver com o emprego que têm, portanto vão gozar do seu tempo livre obtendo mais títulos?

Nenhuma das respostas que eu me dava, quando examinadas se encaixam na realidade. Por que será que eu passei tanto tempo lá? Na última semana de aula, ao receber um email informando os formandos sobre o pagamento de R$50 para a emissão de um diploma um amigo meu me disse: “Poxa, se eu soubesse que era só pagar R$50, teria feito isso 5 anos atrás e economizado todo esse tempo.”

Acho que ele esbarrou na resposta para minha pergunta.

Mas vamos falar sobre outro assunto que me atormentou durante um bom tempo. Na verdade, ainda me atormenta.

OS wars

Qual sistema operacional você usa? Mac? Linux? Windows? Ou um dos meus favoritos, Free ou OpenBSD?

E você passou algum tempo no último mês pensando sobre qual sistema operacional usar e se valeria a pena trocar?

Esse é um assunto que periodicamente retorna à minha mente, para atrapalhar minha produtividade. E eu não sabia explicar o porque. Talvez eu ainda não saiba - mas eu tenho uma hipótese. Por que eu digo que o assunto “atrapalha minha produtividade”?

Durante a faculdade e durante muito tempo, eu era um defensor ferrenho do Linux e principalmente dos sistemas operacionais BSD. Com aquela arrogância de adolescente não entendia como alguém poderia trocar tudo de bom que esses sistemas tinham por um Windows, por exemplo. O comportamento era tão marcante que se tornou parte da minha identidade - pergunte aos meus amigos da época. Mas com o tempo isso mudou.

O dispositivo que mais uso hoje em dia é um iPad, mesmo quando estou trabalhando em meus projetos pessoais, e usei um para fazer a apresentação durante a conferência. Eu gosto desse dispositivo: ele é leve, portátil, faz tudo que preciso em uma estação de trabalho móvel e me mantém entretido quando tenho aqueles cinco minutos de folga do dia.

Daí, como o demônio em miniatura que aparece nos ombros das pessoas em filmes e programas de TV, o Stallman aparece no meu ombro: Rodolpho, o que você está fazendo rodando esse sistema proprietário? Meus amigos começam a tirar sarro: Essa é a versão nutella do Rodolpho - olha só, até tirou a barba. E com isso minha mão começa a coçar. Pego meu laptop estacionado em casa e começo a configurar algum BSD ou distribuição Linux nele. Depois de um dia gasto nisso, volto ao meu trabalho “normal”.

E a novela se repete no sentido contrário daí algumas semanas.

Isso aconteceu tantas vezes e o tempo produtivo que eu perdi era tanto que parei para refletir: por que de verdade eu estava fazendo essa troca? As primeiras respostas eram convincentes a primeiro olhar: preferência por software livre ou aberto a software proprietário, eu posso examinar a caixa preta que estou usando; maior possibilidade de configuração e escolha; maior segurança; maior produtividade. Mas um pouco de reflexão sobre essas respostas ajuda a exibir suas fragilidades:

Sobre poder examinar a caixa preta e auditar o software que estou rodando: sim, é verdade que essa é uma possibilidade. Mas quantas vezes eu fiz isso nos últimos 20 anos? Nenhuma vez.

Possibilidade de configuração e escolha: com certeza é verdade, o número de possibilidades, de shell, ambiente gráfico, com ou sem systemd, distribuições ou projetos BSD, as escolhas são inúmeras. Mas quantas vezes nos últimos 15 anos eu usei algo diferente do que sempre tenho usado? Ou mesmo considerei usar algo diferente? Nenhuma vez.

Maior segurança: com a quantidade de falhas de segurança com processadores Intel recentemente, acho que não preciso explicar porque essa não cola.

E por último: maior produtividade. Será que eu estava sendo mais produtivo com uma plataforma sobre a outra? Eu resolvi medir o quanto meus projetos progrediram em uma plataforma ou outra e o que descobri é que não importa. Na verdade, a mudança de plataforma acaba custando mais caro do que qualquer ganho de produtividade.

Eu percebi que não estava sendo honesto comigo mesmo. Por que será então que essa vontade de mudar de plataforma surge de tempos em tempos? Qual vontade real estou satisfazendo quando troco um sistema operacional por outro?

Flame wars

E mais um exemplo que com certeza você já viu em listas de discussão, canais de IRC ou seja lá qual for a ferramenta de comunicação na moda essa semana.

Você já testemunhou uma discussão sobre qual editor de texto, ou qual IDE, ambiente de desenvolvimento, é melhor? Geralmente essas threads começam com uma pergunta inocente, muitas vezes por um novato, sobre qual ambiente ou ferramenta é a “melhor”. Uma pessoa sugere emacs. Outro sugere vi. Um terceiro, sempre errado, sugere VisualStudio.

Rapidamente a thread se transforma em mais um campo de batalha no “espaço cibernético do demônio”, mais comumente conhecido como “Internet”.

Mas pare e se pergunte, qual o objetivo das pessoas brigando? O que elas querem? Ajudar os novatos? Será que toda essa discussão, raiva e tribalismo é só uma incarnação mal compreendida de compaixão e empatia? É a mais pura vontade de ajudar os outros que fazem os mais experientes se xingarem?

Se a vontade é ajudar, por que não produzem material de treinamento no que acharem ser o melhor editor ou ambiente? Eduque as pessoas novas, para que não tenham que perguntar no futuro.

Ou talvez não seja pela empatia com os novatos, mas a vontade de mostrar como se sabe a verdade! A pessoa é a possuidora da palavra divina. Ela subiu uma montanha, após atravessar um deserto, e no topo deus escreveu em uma tábua de pedra a man page do editor que seu povo escolhido deveria utilizar! E esse profeta da tecnologia quer nos salvar do pecado ao usarmos o editor errado. Mas se essa é sua vontade? Por que esperou? Por que nos assistiu pecando por todo esse tempo e ficou quieto?

Outra possibilidade é que deseja convencer outras pessoas, no outro lado da discussão, que eles estão errados. Mais do que estar certo, o desejo é demonstrar para o outro lado como eles estão errados! Esfregar na cara e, quem sabe, verão como estão errados e como devem mudar de opinião. Mas quantas pessoas trocaram de lado devido a esses flame wars? Alguém já viu uma discussão dessa resultar em “conversão” de um fiel de vi ou emacs?

Ou será que o objetivo das pessoas tem pouco a ver com o novato que iniciou a thread, ou muito menos com o editor?

Sem querer, querendo

O meu objetivo na palestra foi discutir essa vontades latentes - os verdadeiros motivos pelos quais fazemos algo. As coisas que queremos, mesmo sem querer. Ou, nas palavras do grande personagem da minha infância, o que fazemos “sem querer, querendo”.

Muitos dos céticos ainda não estão convencidos que isso pode acontecer. Eu admito, eu mesmo demorei muito em aceitar essa idéia, apesar de ter diante de meus olhos evidências a favor da hipótese e nenhuma explicação melhor. Quem gosta de tomar suas decisões de maneira completamente emocional? E quem aqui gosta tomar suas decisões de maneira completamente racional? Eu venho dizer que estão todos errados e que tomamos nossas decisões de maneira inconsciente.

Mas duas notas de rodapé importantes: primeiro, só porque a decisão foi tomada de maneira inconsciente, não quer dizer que foi uma decisão errada. Não basta poder estar enganado, é preciso demonstrar que é de fato.

Segundo: é difícil aceitar essas idéias, principalmente em público. Muito em parte pelos motivos que ainda vou mencionar. Nós não queremos baixar a guarda e admitir quem nós somos por trás da máscara. Então, quando você for refletir nas idéias que vou mencionar ou aplicá-las em sua a vida veja você mesmo como você é e não como gostaria de ser, ou como gostaria que os outros te vissem. Sinta-se à vontade para admitir suas tendências e motivos mais perversos, mas faça isso de maneira privada primeiro para ser mais fácil.

Voltando à ideia: por trás da cortina, você é simplesmente o passageiro do carro chamado cérebro e quando uma decisão é tomada, você faz engenharia reversa para descobrir o motivo daquela decisão. Muitas vezes, na verdade na maioria das vezes, você estará certo ou certa - afinal você treinou sua vida toda a fazer isso. Mas outras vezes a história que nós contamos a nós mesmos, a motivação que achamos existir para uma decisão, é apenas uma invenção. Nós nos enganamos.

Psicologia

Mas essa idéia que nós enganamos a nós mesmos não é nova. Na área de psicologia há escolas de pensamento inteiras que se baseiam no fundamento que nós escondemos a verdade de nós mesmos.

Sigmund Freud e Anna Freud são famosos no campo de psicanálise. Na verdade, dizer que Sigmund Freud é famoso em psicanálise é dizer que Robert Griesemer, Rob Pike e Ken Thompson são famosos na comunidade de Go. Tanto Sigmund como Anna trabalharam e investigaram o subconsciente, a relação do consciente e subconsciente, e mais especificamente o auto-engano - ou as mentiras das quais nos convencemos.

De acordo com sua teoria, esse auto-engano é uma ferramenta de auto-proteção, um recurso que temos para nos proteger. Quando o consciente é confrontado com ansiedade extrema ou outro sofrimento psíquico, ele pode utilizar o auto-engano para “empurrar” a informação causa-raíz para o subconsciente. O conceito de auto-engano é quase um paradoxo, mas uma ferramenta útil na proteção da auto-estima. Na interpretação dessa escola de pensamento, o ego e a auto-estima são frágeis e devem ser protegidos de conhecimento ameaçador.

Mas será que essa teoria é a melhor maneira de lidar com perigos? Pensando no contexto da seleção natural, qual dos nossos ancestrais possuiria melhores condições de sobrevivência: aquele que ao ver o mato alto se movendo reconhecia o perigo de um possível predador? Ou aquele que se enganava, explicando o movimento como consequência do vento? Uma auto-estima mais resistente ao perigo seria uma solução mais prática do que o auto-engano.

O auto-engano pode levar a riscos maiores, como por exemplo no caso do predador escondido no mato alto. Se ao visitar o internet banking você verifica que não possui saldo o suficiente para seus gastos até o final do mês, você tem três soluções: (1) obter uma fonte de fundos (seja uma renda ou um empréstimo) para aumentar o seu saldo; (2) reduzir os gastos; ou (3) escrever um plugin para o seu navegador favorito que automaticamente soma alguns milhares de reais ao seu saldo.

Então se auto-engano não é uma boa ferramenta para proteção psíquica, qual outra justificativa para sua existência?

Teoria de Jogos

O auto-engano como descrito pelos Freud é uma ferramenta interna - no sentido que o escopo de seus efeitos primários é interno, nós queremos nos enganar para nos proteger. Mas e se o auto-engano for uma ferramenta externa?

Thomas Schelling foi um economista que recebeu um prêmio Nobel por seu trabalho na área de teoria de jogos, conflitos e cooperação. No seu livro, “The Strategy of Conflict”, ou “A Estratégia de Conflito”, Schelling estudou situações em que duas ou mais pessoas possuem alguns interesses que se alinham, mas outros interesses que se opõem. Ou seja, há motivos para cooperação, mas há também motivos para competição. Nessas situações, comportamentos aparentemente contra-produtivos são favorecidos. Alguns exemplos desses comportamentos:

Ignorância intencional. Ter acesso a mais informação, ou saber mais, é algo positivo. Por saber mais, você pode tomar decisões melhores e mais bem informadas. Por que alguém gostaria de intencionalmente ser ignorante? Por exemplo, quando eu sofri sequestro relâmpago muitos anos atrás, eu intencionalmente decidi ser ignorante a respeito da aparência do sequestrador. Nessa situação, a probabilidade de sair ileso aumenta com minha ignorância sobre o sequestrador.

Fechar ou danificar um meio de comunicação. Já que cooperação pode nos ajudar a chegar a resultados melhores para o grupo, por que eu sabotaria a comunicação entre pessoas do grupo? Você já recebeu um convite para sair com amigos, mas depois decidiu que preferia ficar em casa ou fazer algo diferente? E desligou seu celular.

Parece um desleixo com amigos, mas é melhor desligar seu celular intencionalmente e evitar receber a ligação em que seu amigo te perguntará “que horas nos encontramos?” “onde você está?”, do que dizer na cara dele “eu prefiro ficar em casa do que sair com você”. Esse caso do celular desligado para evitar falar com amigos é bem interessante e nós vamos voltar a falar sobre ele, porque exemplifica outras características das “desculpas” que nós usamos e porque as pessoas aceitam essas desculpas (afinal seu amigo sabe que seu celular está desligado, mas a amizade não corre risco).

Outro comportamento que Schelling mencionou e eu mencionei antes é o auto-engano. Ou intencionalmente acreditar em algo que é falso. Se você é um líder de projeto que realmente acredita que os prazos estão corretos e o projeto será entregue sem atrasos, mesmo quando todos os indicadores apontam o contrário, você conseguirá melhor vender e negociar por novos projetos. Ou como o fundador de uma startup que precisa convencer os outros sobre quanto acredita na idéia de seu projeto, mesmo se houver motivo para dúvidas sobre suas chances de sucesso.

Com base nessa teoria, uma escola nova de pensamento surgiu e considera o auto-engano como uma ferramenta que nos permite manipular os outros melhor. Nós nos enganamos para conseguir enganar os outros.

Mentir é um processo muito custoso. Para manter uma mentira, é preciso manter um registro mental adicional e há uma sobrecarga cognitiva. O custo social de ser pego em uma mentira é alto. Há inclusive evidencia que no mundo animal, mesmo entre insetos, os indivíduos que são pegos trapaceando o grupo são tratados com agressividade. O melhor seria não ter que mentir e para isso há duas possibilidades: sempre falar a verdade, ou transformar uma mentira em “sua” verdade. Ou seja, não enganar os outros, mas enganar a nós mesmos e falar a “nossa” verdade.

Vemos que psicologicamente há um valor em nos enganar, mas eu tinha dito algo mais profundo do que “nós nos enganamos” e para isso temos que olhar também para o nosso “hardware”. Nosso cérebro.

Nosso hardware

A primeira coisa que você precisa saber neste momento sobre o cérebro é que cada hemisfério processa sinais do lado oposto do corpo. Assim o lado direito do cérebro processa sinais e controla o lado esquerdo do corpo, inclusive sinais auditivos do ouvido esquerdo; e vice-versa com o hemisfério esquerdo e o lado direito do corpo.

No entanto, algumas atividades específicas são realizadas por determinados hemisférios. Por exemplo, o lado esquerdo é responsável pelo raciocínio lógico, fala e pensamento analítico. O lado direito produz criatividade, imaginação e processos relacionados a música e arte.

Existem pessoas que possuem condições médicas que induzem convulsões de “grande mal”. Se você desconhece os diversos tipos de convulsão que existem, esse tipo (“grande mal”) é o tipo que vem em mente quando você imagina uma convulsão - perda temporária de consciência, rigidez muscular e forte tremores. Essas convulsões são causadas por atividade elétrica anormal em ambos os lados do cérebro.

Para muitas dessas pessoas, uma cirurgia chamada calosotomia oferece um alívio ao reduzir a chance de uma convulsão “grande mal”. Esse procedimento consiste em separar os dois hemisférios do cérebro que normalmente são unidos pelo corpo caloso.

A idéia do procedimento é impedir que essa atividade elétrica adversa propague entre os diferentes hemisférios do cérebro e dessa forma reduzir o escopo das convulsões. Após o procedimento infelizmente, os dois hemisférios são incapazes de comunicar um com o outro, por outro lado nenhum paciente ou seus familiares tinham notado algo de errado. Parecia não existir efeito colateral para o procedimento.

Até que dois neurocientistas, Roger Sperry e Michael Gazzaniga, realizaram alguns experimentos com pessoas que tinham passado pelo procedimento de calosotomia. Os experimentos parecem bem simples: exibir imagens diferentes para cada um dos olhos e em seguida fazer algumas perguntas ou pedir para realizar algumas ações básicas.

Por exemplo, exibir para o olho direito uma imagem de uma galinha enquanto o olho esquerdo era exposto a uma imagem de neve em um campo. Em seguida, os pesquisadores pediram à pessoa que apontasse com a mão esquerda uma palavra que melhor se associasse à imagem que tinha visto. Os participantes apontavam para uma pá de neve - afinal, a mão esquerda é controlada pelo mesmo hemisfério que viu a imagem da neve, o hemisfério direito. Em seguida, os pesquisadores pediam às pessoas que explicassem porque uma pá de neve.

Agora há um problema para o cérebro. O hemisfério direito, que processou a imagem da neve e escolheu a pá, não faz o processamento linguístico e controle de fala. Mas o hemisfério esquerdo não possui acesso à informação do lado direito. O que você acha que aconteceu? A pessoa respondeu “porque a pá pode ser usada para mover a neve”? Ou a pessoa respondeu “eu não sei”?

Os participantes respondiam algo completamente diferente. O hemisfério esquerdo respondia com algum motivo inventado, por exemplo “você pode usar uma pá de neve para recolher esterco de galinha”. Sem ter acesso à informação do hemisfério direito, o hemisfério esquerdo respondeu casualmente com uma mentira. Mas aqui está o ponto, o hemisfério esquerdo não sabia que estava mentindo. Para ele, a resposta era de fato o motivo pela escolha da pá.

Em outro experimento, Sperry e Gazzaniga pediram para uma pessoa, falando somente em seu ouvido esquerdo, se levantar e sair da sala. Dessa forma, o hemisfério direito respondia ao pedido e a pessoa se levantava. Mas antes que saísse da sala, eles questionavam em voz alta o que a pessoa estava fazendo - o que exigia uma resposta do hemisfério esquerdo. Sem saber o motivo verdadeiro, a pessoa respondia “eu só quero ir pegar uma Coca”.

Após suas pesquisas, Gazzaniga chegou à conclusão que o cérebro humano possui um módulo interpretador. De acordo com seu texto, o cérebro procura por explicações para eventos internos e externos, expandindo fatos verdadeiros para entender ou interpretar os eventos da nossa vida.

Nós gostamos de nos ver como o CEO de nós mesmos. Como o presidente da mesa de diretores na nossa cabeça, tomando as decisões. Na verdade nós somos o gerente de relações públicas. A mesa diretora toma uma decisão e agora é o seu papel de justificá-la para os outros.

Você assistiu o filme “Inside Out” ou “Divertida Mente” da Disney e Pixar? Nós queremos nos ver como o líder de todas aquelas emoções, daquele comitê que nos controla. Mas nós estamos no cantinho, tentando fazer sentido das decisões que elas tomam.

Por sorte, você passou sua vida inteira aprendendo a fazer engenharia reversa de suas decisões, de modo que na maioria das vezes você estará certo ou certa. A menos que algo muito fora do comum aconteça, por exemplo uma calosotomia.

Mas será mesmo? Por exemplo, se você tivesse a oportunidade de saber algo que aumentaria sua expectativa de vida, você aproveitaria a chance? Eu imagino que sim.

Uma pesquisa feita em 1998 por Schneider e Epstein com pacientes que passariam por uma cirurgia cardíaca avaliou essa questão. Foi oferecido aos pacientes um relatório sobre a taxas de complicações médicas por médico e hospital - alguns médicos tinham taxas de complicação três vezes maiores que outros. Ou seja, com essa informação os pacientes poderiam trocar de cirurgião ou hospital, diminuir a probabilidade de complicações e aumentar sua expectativa de vida. Para acessar esse relatório, teriam que pagar 50 dólares. Somente 8% dos pacientes estavam dispostos a pagar. Quando relatórios similares foram publicados gratuitamente, a maioria dos pacientes não mudou seu comportamento de acordo com o risco.

Será mesmo que quando dizemos que queremos o melhor tratamento possível nosso cérebro toma decisões nesse sentido?

Outro exemplo, você acha que limites de velocidade são importantes e devemos todos obedecer os esses limites? Uma pequena minoria vai admitir que os limites de velocidade não devem ser respeitados ou são inúteis. Mas quando perguntamos a motoristas se estariam dispostos a instalar um limitador de velocidade no seu carro, para nunca ultrapassarem o limite de velocidade, o que acontece? A esmagadora maioria não quer um carro que impeça violação de limite de velocidade. O que acontece? Será que quando dizemos que queremos limites de velocidade, nosso cérebro toma decisões de acordo com essa intenção?

O que aprendemos quando unimos essa informação com a idéia que o auto-engano é uma ferramenta para manipulação dos outros é que quando temos que afirmar algo em público (por exemplo, se queremos limites de velocidade) nosso cérebro toma a decisão baseado no impacto social da resposta. Mas quando temos que tomar uma decisão privada (por exemplo, comprando um carro ou dirigindo na rua), nosso cérebro toma a decisão independente desse impacto. No entanto, o motivo que acreditamos ter usado para a escolha não é o impacto social, nos convencemos de alguma outra coisa.

Testando software

Todo mundo sabe que testes são úteis. Com testes você pode verificar o comportamento do seu código e comprovar que ele faz o que se espera dele. Testes te ajudam a encontrar bugs e limitações na implementação de um algoritmo. Testes são maravilhoso! Você concorda comigo que testes são maravilhosos?

Mas você gosta de escrever testes? A minoria dos desenvolvedores com que converso gosta de escrever testes. A maioria não só não gosta, mas não querem escrever testes, procrastinam para escrever testes e quando os fazem escrevem os testes mais meia-boca o possível. Por que será que há essa resistência a testes quando sabemos que são tão maravilhosos? Que paralelos podemos traçar entre a opinião das pessoas sobre limites de velocidade e testes de software? E como resolver esse problema?

Aliás, se você é aquela pessoa que adora escrever testes e não acha que a maioria das pessoas pensa assim, podemos pegar outro aspecto do trabalho com tecnologia: seja configurar produção, monitoramento, estar de plantão, escrever documentação. Com certeza há algum tema que você considera de extrema importância, mas no dia-a-dia se comporta de maneira contrária.

Para resolver esse problema primeiro aceite que as motivações que te influenciam quando tomando uma decisão não são óbvias, explícitas ou claras para você mesmo. Melhor tratar seu cérebro e os processos de tomada de decisão como uma caixa preta.

Considere a tomada de decisão como uma caixa preta e nós aprendemos a interpretar seu comportamento. Dessa forma, quando procurando uma motivação para fazer algo é preciso procurar o que realmente nos motiva e não o que gostaríamos que nos motivasse, ou o que dizemos que nos motiva aos outros.

Mas escolher esses incentivos para o comportamento desejado é algo complexo, porque nós não queremos admitir que precisamos dos incentivos. De certa forma, quando afirmamos que precisamos de um incentivo para fazer algo parece que estamos desvalorizando esse algo. Quando você convida um amigo para o jantar, o que aconteceria se você fosse aberto sobre seu incentivo e dissesse: “você quer vir jantar em casa? Eu estou te convidando porque você me convidou para jantar na sua casa.” Não só a amizade é colocada em cheque, mas tanto o jantar quanto o convite são desvalorizados.

Melhor é encontrar um incentivo que entregue os que as pessoas realmente querem, enquanto ao mesmo tempo permite que se auto-enganem sobre o que querem e porque o incentivo é bom.

De novo, melhor é encontrar um incentivo que entregue o que você realmente quer, enquanto você se auto-engana sobre o que quer e porque o incentivo funciona.

Com essas pré-condições, nem todo incentivo é bom o suficiente. Lembra do caso da pessoa que justificou levantar da cadeira e sair da sala com “eu quero beber uma Coca”? Por que essa desculpa funciona? Porque várias vezes as pessoas levantam para pegar uma Coca.

Lembra do comportamento de desligar o celular para evitar conversar com amigos para fugir de um compromisso indesejado? Por que desligar o celular funciona? Porque várias vezes as baterias dos celulares acabam ou o sinal da operadora cai.

Mas não se preocupe muito, as pessoas estão dispostas a se auto-enganar para evitar criar trabalho e problemas para si mesmas. Todo mundo sabe quão fácil é entrar em uma farmácia e comprar um remédio com tarja vermelha, onde está escrito “Venda sob prescrição médica”, sem possuir uma receita. Será que os agentes de fiscalização não sabem disso? Será que o farmacêutico não sabe como é fácil a fiscalização e grande o risco? O farmacêutico e o agente estão dispostos a se auto-enganar sobre a existência da receita, basta a possibilidade da existência da receita para fingirem que está tudo bem.

Então o incentivo de verificar o funcionamento do código atinge uma dessas pré-condições: ela oferece uma desculpa plausível para os outros sobre porque estamos escrevendo testes. Mas não é o suficiente para realmente convencer a maioria dos desenvolvedores (provavelmente porque a maioria também se auto-enganou que o código não possui bugs). As justificativas funcionam em um nível (o externo), mas não em outro (o interno). Para incentivar a caixa-preta de decisão vale tudo, até apelar para os instintos mais egoístas, como auto-promoção.

Considere a prática de organizar tarefas de um projeto em um quadro com post-its. Você acha que post-it em quadros funcionam muito bem para organizar tarefas e esse é o motivo que a produtividade parece aumentar? Ou será que é porque oferece um sinal público da sua produtividade quando um desenvolvedor move os post-its? Quando você completa uma tarefa, você pode exibir seu progresso aos outros.

Aos poucos espero ter demonstrado que não é preciso ser extremamente cínico para pensar que o objetivo de reuniões de trabalho não é necessariamente a troca de informação, mas a exposição de seu conhecimento e seu progresso aos outros. Tudo bem, não sinta vergonha em admitir isso para si mesmo - só tome cuidado ao admitir isso aos outros porque vimos como incentivos explícitos podem desvalorizar o valor da ação.

Afinal, se o objetivo ao ir para reuniões é receber informação, as pessoas ficariam bravas e brigariam quando reuniões fossem canceladas ou acabassem cedo! Todo manteria uma tabela para saber se estão aprendendo tanto quanto estão ensinando durante as reuniões.

“Essa semana eu não aprendi o suficiente! Preciso marcar mais reuniões!” - Ninguém, nunca.

Na próxima vez que você se sentir extremamente motivado ou motivada a fazer algo dedique um tempo a analisar os verdadeiros incentivos para essa motivação. Aprenda o que funciona para você, o que te anima e quando a vontade de procrastinar bater você saberá qual incentivos poderão te ajudar a mover novamente. Em outras palavras, quais incentivos vão manipular a sua caixa preta de decisão a tomar escolhas desejadas. Lembre-se que o que funciona para os outros pode não funcionar para você, é importante se auto-analisar e aprender mais sobre suas motivações.

Como nesses últimos casos, a pressão e exposição social são duas ótimas ferramentas. De novo, a maioria das pessoas prefere não admitir que precisam dessa pressão, então esconda a pressão atrás de uma máscara inocente.

Por exemplo, escrever documentação é uma atividade que poucas pessoas gostam de fazer, mas todos concordam que é algo necessário e parte principal de um projeto. Você tem uma sugestão de como tornar essa atividade mais “recompensadora” para os participantes?

Uma é realizar sessões de leitura com o time. Uma vez por semana o time se reúne para ler e discutir um documento. Dessa forma a importância da documentação é reforçada, ao distribuir o conhecimento com as pessoas presentes. Mas há também uma pressão e recompensa social: o tempo gasto no documento é recompensado pelo reconhecimento dos outros.

Parece uma desculpa barata e esfarrapada, mas funciona - assim como os post-its exibem o progresso do trabalho aos membros do time e parecem um incentivo simplista.

Deixo como lição de casa a tarefa de examinar a prática de peer code-reviews, ou revisão de código alheio, com essa perspectiva. Se o objetivo é melhorar o código, por que as pessoas não se irritam com revisões curtas e poucas correções? Ou por que preferem revisar do que serem revisados?

Peer pressure

O incentivo que eu sei que funciona comigo é a pressão social. Como eu descobri isso? Nem todos os meus projetos, pessoais ou no trabalho, foram bem sucedidos. Sempre que um projeto meu termina, eu escrevo um post-mortem detalhando tudo que aconteceu de bom, o que aconteceu de ruim e onde eu tive sorte durante o projeto. Faço também uma análise dos motivos de sucesso ou falha.

O que eu percebi nessas análises é que há uma correlação muito alta entre os projetos que são bem sucedidos e a quantidade de conversas que tive com amigos sobre esses projetos. Quanto mais eu converso com amigos sobre um projeto, quanto mais dissemino informação, quanto mais perguntas recebo, maior as chances do projeto terminar como planejado.

Eu estaria mentindo se dissesse que sei o verdadeiro motivo dessa correlação, apesar de ter algumas hipóteses. Mas isso não me impede de utilizar essa cenoura em uma vara para me manter movendo nas direções que quero. Como? Por conversar mais e mais sobre os projetos que quero entregar. Por “artificialmente” aumentar essa pressão social.

Claro que meus amigos não sabem que esse é meu objetivo, pelo menos não até agora. Aparentemente a caixa preta de decisão também não se importa com a manipulação e continua combatendo a procrastinação e outros fatores de falha quando a pressão social é maior. Afinal, posso me auto-enganar que estou fazendo isso porque conversas interessantes fazem parte de amizades.

Conclusão

Espero que nossa viagem hoje através dos mistérios do funcionamento do nosso cérebro não tenha causado ansiedade demais. Na verdade, eu espero que você se auto-engane para continuar a vida como sempre, mas agora admitindo algumas coisas.

Primeiro, que incentivos são úteis apesar de nós não gostarmos de admitir isso, pois parece desvalorizar a ação que é incentivada.

Segundo, que apesar de gostar de nos vermos como o CEO de nós mesmos, nós somos um gerente de relações públicas, responsável por interpretar as decisões tomadas e torná-las racionais. No entanto, nós podemos influenciar a mesa de diretores a tomar uma determinada escolha utilizando os incentivos certos.

Mas para escolher os incentivos certos é preciso entender que nossos incentivos reais e as motivações que externalizamos são possivelmente coisas completamente distintas. Quando você tiver que escolher uma ferramenta ou um processo para te motivar, escolha algo que te incentive internamente de forma real, mas permita se auto-enganar com um motivo externo apropriado.

Quando você saberá se acertou na escolha de incentivos e motivações? Quando perceber que está fazendo o que você precisa fazer e principalmente o que você quer fazer, sem querer querendo.

Written on Oct 24, 2018.